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Por Dr. Guilherme Nunes Pires, Professor de Economia — URCA

01 — Ponto de Partida
Balanço Setorial Público × Privado

Os três balanços setoriais devem somar zero por identidade contábil (Sistema de Contas Nacionais da ONU, 2008): (S – I) + (T – G) + (M – X) = 0, ou equivalentemente GOV + PRV + ROW ≡ 0. O saldo do setor privado é o espelho do déficit público e da conta corrente — é matematicamente impossível que um melhore sem que outro piore, mantidas as demais condições.

Economistas que operavam com uma visão bidimensional (apenas PIB e conta fiscal) notoriamente não previram a crise financeira global de 2008 — enquanto os que utilizavam modelos de três balanços conseguiram antecipar o colapso (Bezemer 2010, Galbraith 2012). O dado do setor privado, porém, não é divulgado diretamente: o FMI (World Economic Outlook) publica regularmente apenas o saldo do governo e a conta corrente. O saldo privado é obtido como resíduo: PRV = CAB − GOV.

Para países em desenvolvimento, monitorar o balanço privado é ainda mais crítico do que nas economias avançadas. A receita convencional de "consolidação fiscal" — reduzir déficits públicos — revela-se, pela ótica dos balanços setoriais, uma política que reduz, ceteris paribus, o superávit do setor privado (ou amplia seu déficit), podendo frear ou mesmo reverter o desenvolvimento e a redução da pobreza (Assa e Morgan, 2025).

GOVERNO Déficit público Injeta ativos no circuito privado SETOR PRIVADO Poupança líquida Famílias + empresas acumulam ativos RESTO DO MUNDO Conta corrente Déficit externo = entrada de capital Identidade contábil: GOV + PRV + ROW ≡ 0
02 — OS MOTORES DO CICLO
Fluxos Fiscais e Crédito Privado — Dinheiro Exógeno e Endógeno
Dois mecanismos criam poder de compra: o fiscal (exógeno — déficit soberano, ponto de partida) e o crédito privado (endógeno — criado pelos bancos). As ondas se sobrepõem: o fiscal (verde) lidera a fase, o crédito (laranja) amplifica com defasagem.
Fiscal (exógeno — inicia) Crédito (endógeno — segue) defasagem → Crescimento (demanda real — inicia) Inflação (aperto de mercado — segue) defasagem → Lidera (inicia) Segue defasado Lidera (inicia) Segue defasado
03 — O ACELERADOR DO CICLO
Investimento e Crescimento — Curva S do Ciclo
O investimento é a variável ativa do ciclo: gera a demanda que produz os lucros que o financiam (Kalecki). A curva S mostra aceleração do investimento na expansão (seta verde, diagonal para cima) e reversão no pico (seta vermelha, diagonal para baixo), fiel ao diagrama original.
Crescimento Investimento Inflação (P∆)
04 — A Mecânica do Ciclo
Ciclo Fiscal, Real e Inflacionário — Diagrama de Fluxo Completo
O gasto fiscal (azul) transmite-se ao setor real (vermelho) via demanda agregada, gerando crescimento (verde), lucros, markups, salários e inflação — que retroalimentam os juros e fecham o ciclo fiscal.
FISCAL Rendimentos de Títulos (bo_r) (+) Juros do Governo (+) Déficit (d_b) (- pressão) Leilão de Títulos (b_a) (+) Gasto Gov. Nominal (g_s + g_d) (+ dotações) Gasto Gov. Real (poder de compra) (+ eleva yields) (- valor real) ECONOMIA REAL Demanda Agregada (C+I+G+NX) (+) Lucros (f_p) Crescimento Markups γ Salários (W_L) Invest. & Crédito ι (+mercados) Inflação (P∆) aperto de mercado
05 — O CONFLITO DISTRIBUTIVO
Capital × Trabalho — Relação Inversa na Renda Nacional
A renda nacional divide-se entre lucros (capital) e salários (trabalho). A relação é estruturalmente inversa: expansões cíclicas elevam a parcela dos lucros e comprimem os salários — e vice-versa. Ciclos fiscais e de crédito alteram essa divisão ao longo do tempo (Kalecki 1943, Goodwin 1967). Bandas cinzas = recessões.
rec. rec. rec. rec. Tempo → Parcela dos Lucros Parcela dos Salários lucros ↑ salários ↓ Parcela dos Lucros (Capital) Parcela dos Salários (Trabalho)
06 — O MAPA DO CICLO
Zonas de Crescimento e Fragilidade — Fiscal × Crédito
Zona de Crescimento: fiscal + crédito expansivos. Surpresa Positiva: só fiscal. Zona de Bolha: só crédito — fragilidade Minsky. Zona de Colapso: duplo aperto — recessão.
Fiscal Expansivo Fiscal Contrativo ← Crédito Caindo Crédito Crescendo → Surpresa Positiva Fiscal sustenta demanda sem boom de crédito Crescimento limpo Zona de Crescimento Fiscal + Crédito crescendo Expansão forte Lucros e emprego em alta Zona de Colapso Duplo aperto fiscal + crédito Recessão / Depressão Zona de Bolha Crédito sem suporte fiscal Fragilidade Minsky
07 — POSICIONAMENTO DE PORTFÓLIO
Quadrantes para Mercados Financeiros — Crescimento × Inflação
Framework de quatro quadrantes para alocação de portfólio segundo a fase do ciclo. Utilizado por macro-gestores como Bridgewater e estrategistas de mercado global.
Ações Títulos Inflação Caindo Inflação Subindo Crescimento ↑ Crescimento ↓ Ações Desinflacionárias Crescimento sem inflação ✦ Tecnologia & Inovação ✦ Deflação por Produtividade ✦ Crescimento com margens altas → Melhor cenário para múltiplos Ações Inflacionárias Crescimento com inflação ✦ Commodities Industriais ✦ Alimentos, Saúde, Consumo ✦ Alto Poder de Precificação ✦ Commodities Industriais → Ativos reais e margens preservadas Renda Fixa e Defensivos Recessão + desinflação ✦ Tesouro Direto / NTN-B ✦ Caixa e Renda Fixa ✦ Utilidades / Saúde defensivo ✦ USD / DXY → Proteção · Yields em queda Estagflação Pior cenário para portfólios ✦ Ouro e Metais Preciosos ✦ NTN-B / Inflação indexada ✦ Produtores de Commodities → Ativos reais como reserva de valor